seis

14/04/2010

quase todas as pessoas, ao entrarem em qualquer debate sobre o papel do governo na economia, trazem consigo uma pré-concepção sobre qual a melhor maneira de a máquina pública interferir nos mercados. eu, por exemplo, compartilho da idéia de que qualquer intervenção governamental na economia gera distorções e ineficiências muito maiores do que qualquer benefício gerado por tal mediação por parte do estado. é por essa pré-concepção – vezes baseada em experiências e fatos, vezes baseada em valores morais – que eu entendo o que as pessoas normalmente chamam “ideologia econômica”.

no entanto, algumas vezes me deparo com argumentos que vão contra a minha ideologia, mas que explicam algumas ações do governo melhor do que a minha concepção inicial.  um desses poucos casos diz respeito à regulação do sistema bancário, ou, melhor dizendo, à justificativa para que o governo intervenha na livre iniciativa dentro desse setor da economia.

por que regular os bancos? como é possível ser favorável à intervenção do governo no setor bancário, mas contrário à intervenção em praticamente todos os outros mercados? essa discussão é longa, e com certeza fará parte constante dos meus posts por aqui, mas por hoje eu quero escrever sobre os dois principais argumentos que justificam a existência de um framework regulatório no setor bancário. esses dois pontos são provavelmente os únicos entre os vários existentes que ainda me fazem crer na necessidade de regular os bancos. o primeiro deles eu desenvolvo abaixo, e o segundo será o tema do próximo post.

o primeiro ponto diz respeito à inerente fragilidade dos bancos enquanto instituições comerciais. para entender esse ponto, é preciso antes compreender qual a principal função dos bancos dentro de qualquer economia: a provisão da garantia de liquidez. assim, os bancos aceitam dinheiro (depósitos) que podem ser retirados a qualquer momento e sem aviso prévio por parte dos agentes. além disso, os bancos provêm linhas de crédito para clientes corporativos. no entanto, ao proteger os agentes contra o risco de liquidez, os bancos acabam por ficar expostos a esse mesmo risco!

o mecanismo pelo qual o risco de liquidez é transferido dos agentes econômicos para as instituições bancárias se dá na maneira com que seus balanços contábeis são estruturados. ao aceitar depósitos (que são extremamente líquidos) e utilizar esses mesmos fundos para financiar empréstimos que tem uma liquidez muito menor, os bancos acabam por  ter um estrutura financeira que os deixam extremamente vulneráveis. esse problema é uma das versões do que é geralmente conhecido como asset-liability mismatch, situação na qual os ativos e passivos de uma empresa diferem sistematicamente em alguma característica fundamental (nesse caso, o mismatch ocorre na maturidade).

é verdade que qualquer empresa de qualquer setor da economia pode ter um mismatch entre seus ativos e passivos, mas o que caracteriza os bancos é que para eles esse problema é inerente ao seu negócio. enquanto que para uma empresa não-financeira o mismatch é uma escolha estratégica, um banco não pode financiar o projeto de um empreendedor sem antes tomar depósitos de clientes. de maneira simétrica, o mesmo banco não pode tomar depósitos e guardar todo o dinheiro em baixo do colchão; é preciso investir em projetos que criem valor de tal maneira que o rendimento de seus ativos seja maior do que o seu custo de capital.

a segunda justificativa para a existência de uma regulação bancária fica para o próximo post.

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cinco

14/04/2010


quatro

13/04/2010

as circunstâncias moldam as preferências, e isso também é verdade para alunos. comecei meu mestrado no mesmo mês que o lehman entrou em falência, e não há como negar que os acontecimentos que se seguiram tiveram um grande impacto na minha maneira de encarar o mundo. olhando para trás, o maior impacto da crise financeira sob a minha pessoa enquanto estudante foi uma mudança de foco de questões totalmente teóricas para motivações mais práticas.

assim, comecei a me interessar pelo estudo de como a teoria econômica interage com a prática em duas esferas distintas: negócios corporativos e políticas públicas. quanto mais eu tentava entender a relação teoria-prática, maior era o desconforto que eu sentia devido ao grande vão existente entre esses dois espaços. ao mesmo tempo, ficou claro pra mim que o abismo existente entre a teoria e a prática no mundo dos negócios é qualitativamente muito diferente daquele que encontramos nas políticas públicas.

enquanto que no setor público o grande problema é o baixo fluxo de informações que vai da teoria para quem a pratica, no setor corporativo o obstáculo está na quase total negligência de economistas acadêmicos com o que se passa dentro das empresas e corporações.

não é à toa, então, que grande parte da crise financeira  pode ser atribuída às lamentáveis decisões tomadas pelos reguladores e operadores da política monetária durante os últimos anos. de maneira similar, com esses pontos em mente também é possível compreender por que existem tão poucos economistas ocupando cargos executivos dentro de empresas, e por que a maioria das firmas preferem dar ouvidos a “gurus da administração” do que a qualquer ganhador do prêmio nobel de economia.


três

12/04/2010


dois

12/04/2010

paulo roberto de almeida foi o grande responsável pela minha vontade de se tornar diplomata quando eu ainda cursava o início do meu curso de graduação; foi lendo parte do seu livro sobre a diplomacia econômica brasileira durante o império que tomei gosto pelo assunto. é verdade que hoje em dia trabalho em uma área é totalmente diferente, mas o que seria a nossa história pessoal sem os livros que marcaram determinadas épocas de nossas vidas?

no seu blog, o p.r.a. argumenta que mercados não falham. segundo ele, sua “percepção de não-economista” é elaborada de maneira elegante por fred foldvary, em um artigo que eu li rapidamente e sem muita atenção. o grande problema dos argumentos do foldvary é que sua sustentação depende fortemente do que ele achama de “ética universal”, uma teoria ética consequencialista derivada da filosofia moral de locke. no entanto, se você reproduzir os argumentos tomando por premisa uma ética deontológica, por exemplo, nada no texto faz sentido.

o p.r.a., por sua vez, escreve que

Mercados podem até tardar um pouco — já que dependem da ação de indivíduos ou de grupos de agentes econômicos que continuam a imprimir certa força numa determinada direção — mas inevitavelmente farão o que eles sempre fazem: corrigir os desequilíbrios acumulados numa ponta pelo restabelecimento das relações “corretas” entre os diferentes elementos em jogo.

oras, se o mercado pode demorar para voltar ao equilíbrio, é possível argumentar que entre o momento que o mercado vai de um equilíbrio para o outro, muitas falhas de mercado podem acontecer. assim, eu penso que esse debate acaba por te tornar uma discussão sobre a definição do termo. se por “falhas de mercado” as pessoas entendem “um permanente desvio do equilíbrio”, então é verdade que tais falhas não existem. no entanto, sob o meu ponto de vista, falhas de mercados fazem parte de um conjunto mais amplo de situações nas quais os agentes – por conseqüência de algum ato racional tomado por uma outra parte – acabam, sistematicamente, por derivar perdas relacionadas a atividades econômicas nas quais eles não participam diretamente.

logo em seguida, o p.r.a. continua com seu argumento:

O que é falho, certamente, e a qualidade e o volume das informações disponíveis aos agentes intervindo nos mercados, mas esse é um problema técnico que não envolve nenhuma falha do mercado em si, pois a informação disponível sempre está lá, apenas que não é percebida pelos agentes, ou por serem distraídos, ou por serem apressados, ou por não se darem ao trabalho de coletar essa informação, ou porque simplesmente eles não querem ver.

se mantivermos a definição implícita na análise do p.r.a., é verdade que o problema informacional não é fruto de nenhuma falha de mercado. no entanto, mesmo concordando que a questão da informação não caracteriza falha, eu acho difícil defender a idéia de que a assimetria de informação não possa levar a falhas de mercado. adotando a minha posição exposta no parágrafo anterior, fraudes e roubos realizados por meio de mecanismos de mercado são falhas de mercado.

cheguei ao p.r.a. via gustibus.


um

11/04/2010

o simples notas foi criado em  2008, quando estava começando o meu mestrado na europa. no entanto, logo ficou claro pra mim que, em primeiro lugar, eu não teria tempo pra escrever nada interessante durante o primeiro ano do mestrado e, segundo, que todos os meus textos eram de uma má qualidade incrível. dados esses fatos, e com a pressão e o estresse resultantes do mestrado, decidi deletar todos os meus posts do simples notas, e comecei a me focar completamente no motivo principal de eu ter vindo pra europa.

as duas mais importantes lições que eu aprendi nesses dois anos de países baixos nada têm a ver com economia. a primeira delas – e com certeza a mais valiosa – é que a vida não tem graça sem aqueles que amamos por perto; a segunda é que para ser feliz precisamos trabalhar com algo que gostamos e, mais essencial ainda, com algo que entendemos ser útil e importante dados os valores que escolhemos para guiar nossas vidas.

com essas duas lições em mente, e com mestrado muito próximo do fim, resolvi voltar para a minha terra, para as minhas pessoas, e também para a minha terapia favorita: escrever sem obrigação alguma implícita a esse ato.