doze

21/04/2010

em uma nota anterior, eu publiquei um gráfico que mostra como os investidores internacionais (fora dos eua) aumentaram a participação das mortgage-backed securities nos seus portfólios. eu não tenho como negar que esses tipos de ativos financeiros foram um dos principais responsáveis por levar a crise financeira para os outros setores da economia, e principalmente para outros países. no entanto, banir as mortgage-backed securities (mbs) do mercado trará muito mais perdas do que ganhos para a sociedade. para argumentar em favor desse ponto de vista, primeiro é preciso entender o que é uma mbs.

quando as pessoas querem comprar uma casa, é possível ir até um banco e pedir um empréstimo. como garantia, é comum que as pessoas dêem as próprias casas que elas adquiriram com o o dinheiro tomado no banco. no entanto, o número de empréstimos que cada banco oferece aos seus clientes é limitado por um determinado nível de risco. ou seja, suponha que o banco dá o primeiro empréstimo para o melhor cliente (aquele que tem o menor risco de crédito), o segundo empréstimo para o segundo melhor cliente, e assim por diante. chegará uma hora que o banco não estará mais disposto a oferecer crédito, pois o risco associado aos empréstimos se torna muito grande. no entanto, se o banco pudesse repassar o risco atrelado aos clientes de menor qualidade para investidores mais agressivos, é bem provável que o banco expandiria seu crédito para um público muito maior.

a grande jogada das mortgage-backed securities é que elas permitem a diversificação do risco de crédito entre um grande número de agentes econômicos, permitindo que o banco dê muito mais crédito do que em uma situação sem as mbs. por exemplo, imagine que a fannie mae concedeu um empréstimo igual no valor de $100,000 para 1,000 pessoas diferentes. esses empréstimos podem ser pagos em 10 anos, com uma taxa de juros de 10% ao ano, e o fluxo de caixa que o banco espera receber foi simplificado por motivos didáticos (ver a primeira figura). assim, o valor total dos empréstimos é de $100 milhões.

mortgage-backed securities

fazendo uso de uma matemática elementar, para cada um dos empréstimos concedidos, a fannie mae espera receber de volta $200,000 em juros e principal ao final dos dez anos (ignoremos a questão da taxa de desconto intertemporal). como foram concedidos 1,000 empréstimos similares, o valor total desse portfólio de empréstimos é de $200 milhões. veja que até, o momento, todo o risco de crédito recai sobre a fannie mae.

agora imagine que, por algum motivo de urgência financeira, a fannie mae precise urgentemente de dinheiro. uma alternativa que ela tem é vender todo o seu portfólio de empréstimos para um banco de investimento, repassando o direito ao fluxo de caixa desse portfólio em troca de uma quantia de dinheiro. no nosso exemplo, a goldman sachs paga $150 milhões pelo portfólio, e a fannie mae sai da jogada lucrando $50 milhões.

mortgage-backed securities

agora todo o risco está nas mãos da goldman sachs, que também é quem tem o direito a receber os pagamentos dos empréstimos concedidos pela fannie mae. para tirar esses ativos de risco de seus balanços contábeis, a goldman sachs abre uma nova empresa conhecida como special purpose entity (spe) e transfere todos os empréstimos para essa nova entidade. os bancos de investimento fazem isso normalmente por causa de questões regulatórias, que limitam o montante de capital de risco que eles podem ter em seus ativos.

finalmente, a spe montada pela goldman sachs emite papéis atrelados ao pagamento desses empréstimos. seguindo nossa história, suponha que a spe emita 1 milhão de papéis idênticos cujo retorno depende do pagamento dos empréstimos. imagine também que cada papel desses foi vendido por $160, somando um total de $160 milhões. esses papéis é que são as famosas mortgage-backed securities. como resultado da emissão de mbs, a goldman sachs – através da sua special purpose entity – transformou um portfólio de risco em cash, lucrando de $10 milhões ($150M foi o que a goldman pagou para a fannie mae, e $160M foi o valor arrecadado com a emissão de mbs).

mortgage-backed securities

concluindo, as mbs permitem que o risco de crédito seja diversificado entre milhares de agentes econômicos, o que acaba por aumentar o volume de crédito direcionado a pessoas que querem comprar um imóvel. caso esses instrumentos financeiros sejam banidos do mercado, o banco gerador dos empréstimos não poderá repassar o risco para o banco de investimentos que, por sua vez, não poderá repassar o risco para agentes dispersos. no final das contas, o banco comercial acaba por reduzir sua carteira de crédito, e quem acaba sofrendo são as pessoas que não conseguem comprar seus desejados imóveis.

* a análise acima é válida pra qualquer outro tipo de asset-backed security.

** no exemplo eu desconsiderei diversos fatores pra simplificar a análise (taxa de desconto, fluxo de caixa, probabilidade de default, etc.).

*** peço desculpas pelas minhas ilustrações toscas, mas penso que fica mais fácil de entender com elas.

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2 Respostas to “doze”


  1. […] This post was mentioned on Twitter by philipe, philipe. philipe said: entenda por que banir as 'mortgage-backed securities' não é nada ineligente http://wp.me/slfi0-doze […]

  2. ffabelhaft Says:

    quiiii bómmmmm (pânico na TV)


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