oito

17/04/2010

depois de ter brevemente escrito sobre um dos argumentos que eu considero válidos para termos uma regulação do sistema bancário, desenvolvo nesta nota o segundo ponto.

nos dias hoje, a falência de um banco pode ter conseqüências desastrosas para a economia de qualquer país, mas especialmente para os credores da instituição bancária. além disso, devido ao grande volume de empréstimos inter-bancários, é muito provável que, ao falir, uma instituição acabe por levar consigo algumas outras. no fim, diversas outras empresas que dependem desses intermediários financeiros também acabam falindo, e o contágio se espalha rapidamente por toda a economia devido ao breakdown no sistema de pagamentos.

contra esse argumento, existem duas principais críticas desenvolvidas na década de ’70: a primeira é que não existe nenhuma diferença entre a falência de um banco e a de uma outra empresa qualquer. todos os problemas causados pela concordata de uma instituição financeira também são gerados pela falência de uma empresa automotiva, por exemplo. a segunda crítica segue uma linha similar, argumentando que os executivos dos bancos não têm interesse algum na falência das instituições que eles comandam, fazendo assim com que o oversight por parte dos reguladores não seja necessário. em outras palavras, essa segunda crítica argumenta que a política interna ótima dos bancos deve ser decidida pela própria empresa, e não pelos reguladores, pois é do interesse do banco permanecer no mercado indefinidamente.

oras, respondendo à primeira crítica, um banco não é similar a uma empresa automotiva ou alimentícia. ao contrário da volkswagen, os credores do itaú são seus próprios clientes! quando você deposita cem reais na sua conta do itaú, você vira ao mesmo tempo um cliente e um credor da empresa (seus cem reais aparecem no passivo do banco). já no caso de empresas como a volks, seus credores normalmente são investidores institucionais com ampla capacidade de monitar a empresa na qual o seu dinheiro está investido, enquanto nós, clientes e credores dos bancos, não temos tempo de ficar analisando as decisões tomadas pelas empresas onde colocamos nossa renda. essa dispersão acaba por dar uma enorme margem aos bancos, possibilitando que eles invistam em projetos cujo nível de risco seus credores não estão dispostos a financiar.

é fato inegável que grande parte das pessoas – pelo menos nos eua e na europa – investem também em ações de empresas não-financeiras, e elas também não têm tempo nem a capacidade de ficar monitorando o comportamento dos seus executivos. porém, ao contrário do dinheiro depositado nos bancos, as ações não servem como meio de pagamento, o que acaba por reduzir o problema do free-rider na monitoração dessas corporações. ao mesmo tempo,  outra questão relevante que reduz o problema do free-rider nos outros setores da economia é que a relação debt-equity para um dado nível de risco é muito menor para empresas fora do setor financeiro.

a resposta que eu posso dar à segunda crítica é relacionada ao fato – citado na nota anterior – de que existe um desequilíbrio sistêmico na estrutura de capital do banco. além do problema do asset-liability mismatch, outro fator que acaba por fragilizar o sistema bancário é enorme número de conflitos de interesse que existem entre todas as partes interessadas em um banco. alguns modelos teóricos levam à conclusão de que a dispersão dos credores (que também são os depositários do banco) acaba por elevar o risco tomado por essas instituições (devido à falta de monitoramento), colocando em risco o dinheiro dos clientes. assim, a regulação entraria como uma ameaça externa ao bancos, podendo interferir nos negócios caso o risco médio dos investimentos suba para um nível insustentável.

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Uma resposta to “oito”


  1. […] This post was mentioned on Twitter by philipe. philipe said: dois argumentos a favor da existência de uma regulação bancária: (1) http://bit.ly/dvdDVN e (2) http://bit.ly/d1Ts6w […]


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