dois

12/04/2010

paulo roberto de almeida foi o grande responsável pela minha vontade de se tornar diplomata quando eu ainda cursava o início do meu curso de graduação; foi lendo parte do seu livro sobre a diplomacia econômica brasileira durante o império que tomei gosto pelo assunto. é verdade que hoje em dia trabalho em uma área é totalmente diferente, mas o que seria a nossa história pessoal sem os livros que marcaram determinadas épocas de nossas vidas?

no seu blog, o p.r.a. argumenta que mercados não falham. segundo ele, sua “percepção de não-economista” é elaborada de maneira elegante por fred foldvary, em um artigo que eu li rapidamente e sem muita atenção. o grande problema dos argumentos do foldvary é que sua sustentação depende fortemente do que ele achama de “ética universal”, uma teoria ética consequencialista derivada da filosofia moral de locke. no entanto, se você reproduzir os argumentos tomando por premisa uma ética deontológica, por exemplo, nada no texto faz sentido.

o p.r.a., por sua vez, escreve que

Mercados podem até tardar um pouco — já que dependem da ação de indivíduos ou de grupos de agentes econômicos que continuam a imprimir certa força numa determinada direção — mas inevitavelmente farão o que eles sempre fazem: corrigir os desequilíbrios acumulados numa ponta pelo restabelecimento das relações “corretas” entre os diferentes elementos em jogo.

oras, se o mercado pode demorar para voltar ao equilíbrio, é possível argumentar que entre o momento que o mercado vai de um equilíbrio para o outro, muitas falhas de mercado podem acontecer. assim, eu penso que esse debate acaba por te tornar uma discussão sobre a definição do termo. se por “falhas de mercado” as pessoas entendem “um permanente desvio do equilíbrio”, então é verdade que tais falhas não existem. no entanto, sob o meu ponto de vista, falhas de mercados fazem parte de um conjunto mais amplo de situações nas quais os agentes – por conseqüência de algum ato racional tomado por uma outra parte – acabam, sistematicamente, por derivar perdas relacionadas a atividades econômicas nas quais eles não participam diretamente.

logo em seguida, o p.r.a. continua com seu argumento:

O que é falho, certamente, e a qualidade e o volume das informações disponíveis aos agentes intervindo nos mercados, mas esse é um problema técnico que não envolve nenhuma falha do mercado em si, pois a informação disponível sempre está lá, apenas que não é percebida pelos agentes, ou por serem distraídos, ou por serem apressados, ou por não se darem ao trabalho de coletar essa informação, ou porque simplesmente eles não querem ver.

se mantivermos a definição implícita na análise do p.r.a., é verdade que o problema informacional não é fruto de nenhuma falha de mercado. no entanto, mesmo concordando que a questão da informação não caracteriza falha, eu acho difícil defender a idéia de que a assimetria de informação não possa levar a falhas de mercado. adotando a minha posição exposta no parágrafo anterior, fraudes e roubos realizados por meio de mecanismos de mercado são falhas de mercado.

cheguei ao p.r.a. via gustibus.

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Uma resposta to “dois”


  1. Não existe falha de mercado, e o que eu mencionei do tempo incorrido entre um desequilíbrio e sua correção é simplesmente o ajuste que PRECISA ser feito para que os agentes internalizem os novos dados da situação e o momento em que isso é feito, pois que os agentes, ajudados pelo governo, insistem na velha situação, ocasionando aí perdas maiores, posto que governos sempre socializam perdas de grupos.
    Mesmo sem ética universal, mercados funcionam, sinalizando as tendências corretas. Se alguém com poder resolve contrariar essas tendências, então já não estamos mais falando de falhas de mercado e sim de atuação deliberada contra as forças de mercado.


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