dezesseis

20/05/2010

analisando a tabela abaixo podemos concluir que as empresas, em sua grande maioria, se anteciparam ao credit crunch que teve início em 2007. a quantia média de dinheiro disponível nos tesouros das firmas mais do que dobrou desde 1980, chegando aos incríveis 23% (cash-to-asset ratio) um ano antes do estopim financeiro! fico imaginando o que teria acontecido com a economia mundial se as empresas continuassem com uma média de 10% de cash ratio… ia ser o inferno!


quinze

05/05/2010

todo dia 5 de maio a holanda comemora a sua libertação na segunda guerra mundial, e todo 4 de maio o se homenageia  aqueles que tiveram suas vidas interrompidas por causa de conflitos bélicos. ontem eu fui ao centro de amsterdam para participar da homenagem, e exatamente as 20 horas as pessoas começaram a fazer dois minutos de silêncio.

foi então que algum sujeito começou a gritar em algum lugar ali perto, e logo em seguida uma voz feminina começou a berrar como se estivesse sendo atacada ou em perigo. de repente, um barulho – que na hora eu pensei ser de um tiro – ecoou por toda a dam square, e foi então que começou a correria. na hora eu nem percebi, mas vendo o vídeo mais tarde percebi que o pânico se espalhou de maneira ondulatória. é muito claro que existiu um epicentro de pânico que depois foi se espalhando pela multidão de uma maneira consecutiva. assim, acho que é possível concluir que uma pessoa entrou em pânico apenas após ver que uma outra pessoa estava apavorada. se no começo de tudo, ninguém tivesse se mechido, não haveria contágio algum.

esse maneira ondulatória pela qual o pânico ou o medo se prolifera é muito comum também em diversas situações econômicas e financeiras. os únicos pré-requisitos teóricos para que tal efeito ocorra é que as pessoas tenham um mesmo objetivo e que tais indivíduos estejam de alguma forma conectados. no caso do vídeo em amsterdam, o objetivo comum entre as pessoas ali presentes era voltar pra casa sãs e salvas. já a conexão entre elas era um simples contato físico e visual.

podemos levar essa idéia para situações econômicas, onde o objetivo comum das pessoas é conseguir o maior nível de bem-estar possível e onde elas estão conectadas pelos diversos canais de informação existentes em uma economia de mercado.  muitas crises bancárias se aprofundaram por tal contágio; ou quando um cliente preocupado acaba por preocupar outro (levando a falência de um único banco), ou quando um banco que entre em falência acaba por gerar um pânico generalizado com relação a outras instituições (causando uma crise sistêmica).

para finalizar, um vídeo feito por alguém que estava no meio da multidão de amsterdam:

sob o meu ponto de vista nada especialista, eu acho que o principal motivo psicológico por trás detais acontecimentos é a confiança que as pessoas geralmente depositam no comportamento coletivo, especialmente quando elas não têm muito conhecimento sobre o fenômeno causador.


quatorze

01/05/2010

estou com problemas. são tão grandes que certas noites nem consigo dormir de tanto pensar sobre eles. dentro todos, o que mais me inquieta é a incerteza com relação à minha vida profissional. eu vim pra europa fazer um mestrado que me deu um baita treinamento para seguir a carreira de pesquisador. no final fui aceito em ótimos phds, me ofereceram bolsas, ajuda de custo para visitar os departamentos, mas eu resolvi seguir um caminho diferente: estou tentando ir pro mercado de trabalho no setor privado. mas tá difícil…

o grande obstáculo é a falta de experiência dentro de uma empresa. no meio acadêmico eu estou cheio de coisas pra colocar no meu cv, mas o meu resume carece de palavras na seção “experiências profissionais”. o pessoal acha que basta ter um mestrado bom para conseguir um emprego legal, mas a verdade é que se precisa de networking. meus colegas que ficaram no brasil para o mestrado estão cheios de propostas interessantes, e eu tenho que apelar pra programas de trainee.

isso tudo me deixa muito chateado, pois sei do meu potencial. o problema é que as empresas não sabem. estou perdendo meus cabelos de preocupação, e ando sem motivação nenhuma. é muito chato ir atrás de empregos e receber apenas respostas negativas e, pior do que isso, ser ignorado pela empresa.


treze

23/04/2010


doze

21/04/2010

em uma nota anterior, eu publiquei um gráfico que mostra como os investidores internacionais (fora dos eua) aumentaram a participação das mortgage-backed securities nos seus portfólios. eu não tenho como negar que esses tipos de ativos financeiros foram um dos principais responsáveis por levar a crise financeira para os outros setores da economia, e principalmente para outros países. no entanto, banir as mortgage-backed securities (mbs) do mercado trará muito mais perdas do que ganhos para a sociedade. para argumentar em favor desse ponto de vista, primeiro é preciso entender o que é uma mbs.

quando as pessoas querem comprar uma casa, é possível ir até um banco e pedir um empréstimo. como garantia, é comum que as pessoas dêem as próprias casas que elas adquiriram com o o dinheiro tomado no banco. no entanto, o número de empréstimos que cada banco oferece aos seus clientes é limitado por um determinado nível de risco. ou seja, suponha que o banco dá o primeiro empréstimo para o melhor cliente (aquele que tem o menor risco de crédito), o segundo empréstimo para o segundo melhor cliente, e assim por diante. chegará uma hora que o banco não estará mais disposto a oferecer crédito, pois o risco associado aos empréstimos se torna muito grande. no entanto, se o banco pudesse repassar o risco atrelado aos clientes de menor qualidade para investidores mais agressivos, é bem provável que o banco expandiria seu crédito para um público muito maior.

a grande jogada das mortgage-backed securities é que elas permitem a diversificação do risco de crédito entre um grande número de agentes econômicos, permitindo que o banco dê muito mais crédito do que em uma situação sem as mbs. por exemplo, imagine que a fannie mae concedeu um empréstimo igual no valor de $100,000 para 1,000 pessoas diferentes. esses empréstimos podem ser pagos em 10 anos, com uma taxa de juros de 10% ao ano, e o fluxo de caixa que o banco espera receber foi simplificado por motivos didáticos (ver a primeira figura). assim, o valor total dos empréstimos é de $100 milhões.

mortgage-backed securities

fazendo uso de uma matemática elementar, para cada um dos empréstimos concedidos, a fannie mae espera receber de volta $200,000 em juros e principal ao final dos dez anos (ignoremos a questão da taxa de desconto intertemporal). como foram concedidos 1,000 empréstimos similares, o valor total desse portfólio de empréstimos é de $200 milhões. veja que até, o momento, todo o risco de crédito recai sobre a fannie mae.

agora imagine que, por algum motivo de urgência financeira, a fannie mae precise urgentemente de dinheiro. uma alternativa que ela tem é vender todo o seu portfólio de empréstimos para um banco de investimento, repassando o direito ao fluxo de caixa desse portfólio em troca de uma quantia de dinheiro. no nosso exemplo, a goldman sachs paga $150 milhões pelo portfólio, e a fannie mae sai da jogada lucrando $50 milhões.

mortgage-backed securities

agora todo o risco está nas mãos da goldman sachs, que também é quem tem o direito a receber os pagamentos dos empréstimos concedidos pela fannie mae. para tirar esses ativos de risco de seus balanços contábeis, a goldman sachs abre uma nova empresa conhecida como special purpose entity (spe) e transfere todos os empréstimos para essa nova entidade. os bancos de investimento fazem isso normalmente por causa de questões regulatórias, que limitam o montante de capital de risco que eles podem ter em seus ativos.

finalmente, a spe montada pela goldman sachs emite papéis atrelados ao pagamento desses empréstimos. seguindo nossa história, suponha que a spe emita 1 milhão de papéis idênticos cujo retorno depende do pagamento dos empréstimos. imagine também que cada papel desses foi vendido por $160, somando um total de $160 milhões. esses papéis é que são as famosas mortgage-backed securities. como resultado da emissão de mbs, a goldman sachs – através da sua special purpose entity – transformou um portfólio de risco em cash, lucrando de $10 milhões ($150M foi o que a goldman pagou para a fannie mae, e $160M foi o valor arrecadado com a emissão de mbs).

mortgage-backed securities

concluindo, as mbs permitem que o risco de crédito seja diversificado entre milhares de agentes econômicos, o que acaba por aumentar o volume de crédito direcionado a pessoas que querem comprar um imóvel. caso esses instrumentos financeiros sejam banidos do mercado, o banco gerador dos empréstimos não poderá repassar o risco para o banco de investimentos que, por sua vez, não poderá repassar o risco para agentes dispersos. no final das contas, o banco comercial acaba por reduzir sua carteira de crédito, e quem acaba sofrendo são as pessoas que não conseguem comprar seus desejados imóveis.

* a análise acima é válida pra qualquer outro tipo de asset-backed security.

** no exemplo eu desconsiderei diversos fatores pra simplificar a análise (taxa de desconto, fluxo de caixa, probabilidade de default, etc.).

*** peço desculpas pelas minhas ilustrações toscas, mas penso que fica mais fácil de entender com elas.


onze

21/04/2010

nouriel roubini ficou conhecido como dr. doom após suas visões pessimistas sobre a economia mundial terem se tornado um fato. com sua fama, o professor da nyu montou uma empresa de consultoria econômica que vem fazendo muito sucesso, o rge (roubini global monitor). com muitos economistas e analistas escrevendo para o site da empresa, fica meio difícil controlar tudo o que o pessoal fala. no entanto, um caso curioso aconteceu no último dia 14, quando um tal de ricardo amaral escreveu um artigo de opinião clamando pela volta da ditadura militar no brasil:

I am suggesting that the military should seize power again in Brazil through a coup d ‘état, because we all know that this massive crime problem that is devastating the Brazilian population can’t be solved under a democratic system of government, and because of the actions that have to be taken to bring peace to all neighborhoods in Brazil. It is time for a benevolent military dictator to take power in Brazil and get the job done.

é engraçado ler todo o texto, no qual o ricardo amaral versa sobre as boas ações do que ele – ingenuamente? – chama de ditadores benevolentes que comandaram o brasil em períodos distintos:

As we can see by the above examples some of the best economic policies adopted by the Brazilian economy were adopted courtesy of periods of benevolent dictatorships in Brazil  – First, when a civilian politician such as Getulio Vargas was the dictator in Brazil (from 1937 to 1945) and finally the period of 21 years of military dictatorship under a Brazilian Military Government (from March 1964 to March 1985). [...] Under the dictatorship of a civilian politician, and later under the dictatorship of the military important economic changes were adopted and implemented in Brazil that planted the seeds for long-term Brazilian economic prosperity.

parece que o site do rge já tirou o texto do ar, mas ainda é possível acessá-lo aqui. eu pessoalmente não concordo com o texto, mas achei interessante o fato de ele ter sido publicado no site de uma empresa que cada vez mais vem ganhando espaço na mídia internacional. ah, e não se deixa enganar por apenas esse texto: normalmente as análises publicadas no rge são excelentes.


dez

19/04/2010

toda crise financeira tem uma mecanismo de contágio doméstico, e diversas crises também tem uma mola responsável por levar a crise para outros países do mundo. o gráfico abaixo – que mostra o quanto cada tipo de investidor investiu em mortgage-backed securities entre 2003 e 2007 – deixa claro qual foi a bomba dos últimos anos…

mbs ownership

Source: Inside Mortgage Finance Publications


nove

18/04/2010


oito

17/04/2010

depois de ter brevemente escrito sobre um dos argumentos que eu considero válidos para termos uma regulação do sistema bancário, desenvolvo nesta nota o segundo ponto.

nos dias hoje, a falência de um banco pode ter conseqüências desastrosas para a economia de qualquer país, mas especialmente para os credores da instituição bancária. além disso, devido ao grande volume de empréstimos inter-bancários, é muito provável que, ao falir, uma instituição acabe por levar consigo algumas outras. no fim, diversas outras empresas que dependem desses intermediários financeiros também acabam falindo, e o contágio se espalha rapidamente por toda a economia devido ao breakdown no sistema de pagamentos.

contra esse argumento, existem duas principais críticas desenvolvidas na década de ’70: a primeira é que não existe nenhuma diferença entre a falência de um banco e a de uma outra empresa qualquer. todos os problemas causados pela concordata de uma instituição financeira também são gerados pela falência de uma empresa automotiva, por exemplo. a segunda crítica segue uma linha similar, argumentando que os executivos dos bancos não têm interesse algum na falência das instituições que eles comandam, fazendo assim com que o oversight por parte dos reguladores não seja necessário. em outras palavras, essa segunda crítica argumenta que a política interna ótima dos bancos deve ser decidida pela própria empresa, e não pelos reguladores, pois é do interesse do banco permanecer no mercado indefinidamente.

oras, respondendo à primeira crítica, um banco não é similar a uma empresa automotiva ou alimentícia. ao contrário da volkswagen, os credores do itaú são seus próprios clientes! quando você deposita cem reais na sua conta do itaú, você vira ao mesmo tempo um cliente e um credor da empresa (seus cem reais aparecem no passivo do banco). já no caso de empresas como a volks, seus credores normalmente são investidores institucionais com ampla capacidade de monitar a empresa na qual o seu dinheiro está investido, enquanto nós, clientes e credores dos bancos, não temos tempo de ficar analisando as decisões tomadas pelas empresas onde colocamos nossa renda. essa dispersão acaba por dar uma enorme margem aos bancos, possibilitando que eles invistam em projetos cujo nível de risco seus credores não estão dispostos a financiar.

é fato inegável que grande parte das pessoas – pelo menos nos eua e na europa – investem também em ações de empresas não-financeiras, e elas também não têm tempo nem a capacidade de ficar monitorando o comportamento dos seus executivos. porém, ao contrário do dinheiro depositado nos bancos, as ações não servem como meio de pagamento, o que acaba por reduzir o problema do free-rider na monitoração dessas corporações. ao mesmo tempo,  outra questão relevante que reduz o problema do free-rider nos outros setores da economia é que a relação debt-equity para um dado nível de risco é muito menor para empresas fora do setor financeiro.

a resposta que eu posso dar à segunda crítica é relacionada ao fato – citado na nota anterior – de que existe um desequilíbrio sistêmico na estrutura de capital do banco. além do problema do asset-liability mismatch, outro fator que acaba por fragilizar o sistema bancário é enorme número de conflitos de interesse que existem entre todas as partes interessadas em um banco. alguns modelos teóricos levam à conclusão de que a dispersão dos credores (que também são os depositários do banco) acaba por elevar o risco tomado por essas instituições (devido à falta de monitoramento), colocando em risco o dinheiro dos clientes. assim, a regulação entraria como uma ameaça externa ao bancos, podendo interferir nos negócios caso o risco médio dos investimentos suba para um nível insustentável.


sete

16/04/2010

estou cheio de problemas, sendo dois deles extremamente doloridos. o primeiro é uma pedra no rim direito, mas que agora está descendo pelo meu corpo. uma viagem que já dura mais de dois meses. a dor é terrível, e a freqüência com que tenho que ir ao banheiro é alta. o segundo problema é a labirintite, que foi diagnosticada hoje, após eu passar mal enquanto conversava sobre credit default swaps com um professor. no momento tenho muita vertigem, e sinto muito calor na cabeça. pra variar, fui mal atendido no hospital, o que só serviu pra reforçar a minha idéia de que a europa é o novo terceiro mundo. assim, o post sobre a segunda justificativa para a existência de uma regulação bancária fica pra amanhã, eu espero.


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